o-centesimo-escudo

Lucius desmonta do cavalo. Ao longe no fim da estrada, estava uma gigantesca arvore que se destacava das outras. Nela, dezenas e dezenas de escudos, de todos os tipos. Vários cavaleiros os deixaram ali, junto com suas vidas.

Ali também estava Fausto, seu irmão. Sua armadura era impecável, com placas grossas e cotas de malha metálica. Nenhum arranhão era visível. Isso demonstrava que poucos conseguiram sequer toca-lo em uma luta.

– Tem certeza do que esta prestes a fazer, Lucius? – Ele indagou, irônico – Quer realmente me enfrentar em um duelo pela mão de Bernardete em casamento??

Em um cavalo, ao longe, a jovem moça observava apavorada. Os irmãos lutariam por sua causa. Viveram toda a infância e juventude juntos, como irmãos. Quando o amor floresceu entre ela e Lucius, a inveja e o ciúme cresceu no

coração de Fausto como uma erva daninha.

-Veja irmão! Veja todos esses escudos! Cada um desses 99 escudos aqui colocados são de homens que me desafiaram e morreram! Se continuar, você, meu próprio irmão, será o minha centésima vítima!

Lucius, chocado com a cena, tenta argumentar. Esta pode ser sua unica esperança.

– Fausto, este duelo não tem sentido! Bernadete não te ama! O teu ciume o cega! Você nunca aceitou a escolha dela! Você nunca aceitou que ela me escolheu ao invés de você!

– Basta! – Berrou Fausto – Chega de sua ladainha, irmão! Saque sua espada! Veremos se ela é tão afiada quanto sua língua!

Lucius mal teve tempo de sacar a espada. Os golpes eram de uma brutalidade sem tamanho. Não era apenas seu estilo de luta agressivo, era também seu ódio, sua frustração encarnada em cada movimento. Fausto era o espadachim mais mortal que Lucius conhecera. Sua esperança era trazê-lo a razão com palavras. Essa esperança tinha desaparecido com o primeiro choque entre as armas.

Com um golpe violento, o escudo de Lucius voa longe, quebrado. Caído, ele não tem como evitar o golpe fatal.

– Adeus, meu irmão! – Urra Fausto triunfante, com a espada sobre a cabeça.

Porém, quando a espada começou a descer em direção a cabeça de Lucius, uma delicada figura se coloca entre os irmãos, uma moça de vestido branco e capa azul.

– Bernadete! Não!! – Lucius berra em desespero.

Fausto percebe o instante mortal a presença da sua amada. A lâmina matadora para a apenas alguns centímetros de sua testa, lhe ceifando poucos fios de seu cabelo loiro, que somem ao vento.

– Bernadete, saia da frente! Eu venci Lucius! Seu escudo está partido! Devo toma-lo agora!

A jovem não se move. Seus olhos castanhos fixos em Fausto. E, com a altivez de uma rainha, ela diz:

– Você se intitula campeão Fausto. Ostenta todos esses escudos. Pois bem, eu sou agora o escudo de meu amado Lucius! – Ela abre os braços, protegendo o amado. Sua capa azul estendida lembra um gigantesco escudo ao vento.

– Venha Fausto! Tente me partir com sua espada!

O braço de Fausto hesitou, pela primeira vez em sua vida. Não podia toca-la. Ela era um escudo invencível!

– Você sabe que não posso te ferir! Nunca poderia te ferir!

Fausto estremece, sua voz fraca entre soluços de frustração. O guerreiro de 99 batalhas cai em prantos, ali mesmo.

– Se você não pode ferila, meu irmão, eu perdoo todo o seu ódio e ciúmes, por Cristo. – Lucius se levanta – Que o Senhor tenha misericórdia e te proteja.  Adeus.

O casal se afasta da arvore, abraçado. O Fausto derrotado ali não seria mais o monstro de ódio que eles enfrentaram, um monstro mais perigoso que mil dragões. Pois aquele homem, chorando dentro daquela armadura aprendera uma valiosa lição:

Não importa qual seja a adversidade, o amor é o mais poderoso dos escudos.

*Professor Vagner Roberto

Graduado em Historia pela UNG e Pos em Gestão Educacional na UMC, atua como professor da Rede Publica na Escola Maria Isabel Nevez Bastos, em Aruja.

Acesse o blog pihstvagnersilva.blogspot.com.br

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